A dança horrorosa dos técnicos


Esse tema está rondando minha mente perversa, há tempos. Tenho sido um crítico contumaz do trabalho do técnico Mano Menezes à frente do time corinthiano, em que pesem as conquistas de 2009. Não estou com a massa  ignorante na questão Libertadores, ou seja, não ligo a mínima para esse torneio de baixa qualidade, prejuízo certo no bolso dos participantes brasileiros, em termos de bilheteria, mal organizado, manipulado, violento, enfim, uma disputa sem capacidade de agregar valor aos participantes brazucas. Nesse sentido, o campeonato brasileiro é muito mais importante, pois interessa a nós e aos europeus que lhe dão a devida atenção, de olho em nossas revelações, infelizmente. Deviamos fazê-los pagar caro par ver nossos jogadores jogando aqui. E nosso técnico resolveu andar na contramão da lógica em 2009, desistindo da disputa mais importante.

Mas minha questão vai em outra direção. Na verdade, não é o Mano, em si. Provavelmente, ele seja uma boa pessoa, bom marido e pai, etc. , apesar de gaúcho. No Brasil, não há e nunca houve bons técnicos de futebol, apenas uns  mais espertos. A grande maioria esmagadora dos profissionais de hoje e do passado é formada por leigos. Geralmente, ex-jogadores travestidos em técnicos. Isso, automaticamente, pré-supõe ser a experiência de campo como jogador o pré-requisito básico para exercer a função de técnico e nada poderia estar mais longe da verdade.

As funções de técnico e jogador, embora complementares, são muito diferentes. Um jogador precisa dominar os fundamentos do esporte, conhecer as regras do jogo e ter noção mínima das funções de cada jogador de uma equipe, depois conhecer detalhadamente as atribuições da sua posição dentro do time. Feito isso, espera-se dele a noção geral do desenvolvimento do jogo. A maior parte dos jogadores brasileiros, hoje, embora sejam os melhores do mundo, não domina nem 50% dessas exigências, óbvio. No meu tempo, eles não jogariam nem no segundo quadro do meu saudoso União da Vila Santa Catarina. Um cara com a bola do Roberto Carlos seria aconselhado a optar pela profissão de gandula, se muito.

Ao técnico, não se requer domínio dos fundamentos, apenas conhecimento deles. Os requisitos teóricos da função dizem respeito, às regras, técnicas e táticas do jogo e às capacidades gerenciais, como liderança, psicologia do esporte, administração e gestão esportiva, preparação física (com todas as suas matérias), metodologia do esporte, história e filosofia do futebol, sem falar na exigência de dominar, pelo menos a língua inglesa, como deixou claro o místico Joel Santana, além da nativa, coisa que a maioria é incapaz de fazer. Soma-se a tudo isso, o domínio das rotinas e agendas do esporte. Enfim, as funções de um técnico são amplamente diferentes das funções de um jogador. Claro que a experiência de campo como jogador contará a favor de um técnico, mas só ela não será suficiente para eleger alguém ao cargo.

Sendo assim, seria necessário que os ex-jogadores interessados em avançar para a profissão de técnicos se submetessem a intensa preparação, a fim de lograrem as capacidades e competências necessárias à função. Coisa impensável, pois as baladas não lhes deixa tempo para mais nada, às vezes nem para jogar por seus times, razoavelmente.

No Brasil, se olharmos toda a história do esporte por aqui, descobriremos que tivemos pouquíssimos técnicos com competência além do razoável. Atualmente, talvez não haja nenhum nessas condições, mesmo considerando os que estão trabalhando além de nossas mal policiadas fronteiras. Os gaúchos parecem dominar esse mercado, por razões desconhecidas, já que não são melhores do que os outros conterrâneos, em nada. A filosofia dominante é a de perder o mínimo possível e aguentar-se no emprego o máximo, garantido pela estatística de poucas derrotas. Isso explica, sem sombra de dúvida, a opção pelo jogo feio, defensivo, recheado de volantes brucutus e sem gols. Um deles, talvez o mais famoso, o senhor Luiz Felipe Scollari não suportou os reclames do próprio ego ao receber a alcunha de burro em terras d’ além mar (Portugal) e foi parar bem longe de lá.

De cabeça, citaria, entre os tais que passaram por aqui, um tal de Bella Gutman, húngaro, que dirigiu o timinho do Morumbi, no final da década de cinquenta, era bem preparado e introduziu novos conceitos à profissão, mas sua marca maior foi levar o Benfica a vencer o campeonato europeu e vaticinar que o time, sem ele, nunca mais o faria. A profecia dura 47 anos. Depois dele, só sobra o técnico Rubens Minelli, com formação universitária (economia) estudou as competências e propostas de jogo e preparação do famoso técnico holandês Rinus Mitchels que montou o melhor time que vi jogar, a seleção holandesa da Copa de 1974. Os outros falados, como o turrão e incompetente Tele Santana, que afundou duas seleções brasileiras em Copas (82 e 86), Zagalo, incapaz de entender o significado de linha burra e de pronunciar a palavra estratégia, Luxemburgo, o maior cascateiro dos campos brasileiros e a partir daí, a coisa só piora. A maioria dos técnicos vencedores é formada por sortudos que estavam no lugar certo e na hora certa em que haviam jogadores habilidosos capazes de ganhar campeonatos.  Nelsinho Batista que o diga. Tanto é que, a maioria deles, não consegue repetir os feitos quando se vêm em outra situação.

Não que a coisa melhore quando olhamos para os outros países, que além de não terem bons técnicos, também não dispõem de jogadores de qualidade. Há o técnico holandês Guus Riddick, que gostaria de ver dirigindo nosso time, pelo menos em uma temporada, Fábio Capello e o atual técnico da seleção espanhola Vicente Del Bosque que inspira seu trabalho no jeito brasileiro de jogar, embora utilize a conhecida tática das duas linhas de quatro.

Como diria o Sr. Manoel, dono da padaria da esquina, “quem não tem competência, não se estabeleça”, e isso serve para os senhores técnicos do nosso futebol profissional. Se logramos alguma coisa com todos os impostores que dirigiram nossas equipes profissionais, inclusive nossa seleção, caso do técnico atual, se tivéssemos gente competente em lugar deles, teríamos feito muito mais. Sou daqueles que acredita que nosso futebol deveria ser imbatível em qualquer circunstância ou categoria. Mas, na verdade, nem a fácil medalha de outo olímpico jamais conseguimos, nem no feminino que seria a maior baba.

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