Futebol e amor


Desculpe a insistência, mas fui obrigado a surrupiar o texto do Daniel outra vez. Entenda por que:

Futebol e amor

By Daniel Piza

Não vou entrar nessa chatíssima discussão sobre os erros de arbitragem de Carlos Eugênio Símon, até porque já comentei no blog que não há a menor possibilidade de alguém alegar que houve falta em Obina; não é nem preciso rever o lance nas câmeras de TV para estar seguro de que não houve nada. Quanto aos que dizem que não houve o escanteio antes, aí sim se poderia alegar alguma confusão visual. A anulação do gol, não: ou foi por covardia ou por má fé – não há outra hipótese. Mas as declarações exacerbadas de Luiz Gonzaga Belluzzo levantam um tema relacionado a esse: por que o futebol precisa virar uma vazão da irracionalidade humana, tantas vezes em seu pior aspecto?

Nando Reis se queixou aqui, recentemente, de que eu teria escrito que “comparar futebol e amor é ridículo”. Não, caro Nando, o que escrevi foi que “dizer que o amor por um clube é maior que o amor por uma mulher” é ridículo. Essa adoração fanática, com perdão do pleonasmo, tira o que para mim é a graça do futebol, sua inutilidade inspiradora, sua diversão simbólica. Perder o humor por vários dias porque “seu” time (olha o possessivo!) perdeu um jogo é dar uma importância moral ao futebol que ele não precisa ter. Ver um intelectual sério, esse espécime em extinção no Brasil, falar como se fosse um Eurico Miranda não pode fazer bem algum. Torcer por um clube pode ser para sempre, mas 90 minutos com a mulher amada é que podem mudar a vida.

Na revista Serrote que já está nas bancas, por sinal, temos outros dois intelectuais falando sobre esporte. O primeiro é o pensador francês Roland Barthes, num texto de muitos lugares comuns, mas que diz que esporte é mais comunicação que competição, é mais expressão que destruição: o espetáculo reduz a “nocividade” do combate e é feito para “relatar o contrato humano”. O segundo é o escritor argentino Júlio Cortázar, que em entrevista falou de seu gosto por boxe como “um enfrentamento de duas técnicas, de dois estilos, a habilidade de vencer sendo às vezes do mais fraco”. Por isso mesmo, disse não se interessar por futebol e por esportes coletivos.

Bem, o barato do futebol é o modo como ele é coletivo e individual ao mesmo tempo. Ninguém vence um jogo sozinho, mas todo espetáculo tem seus protagonistas e/ou vilões. Tire Ronaldo da partida contra o Santo André e tudo não teria passado de uma tarde anódina no estádio ou diante da TV. Com seu golaço de esquerda no ângulo, depois de afastar a marcação com uma pedalada, e com seus passes de efeito para colegas que erraram (Defederico) ou acertaram (Dentinho), nocauteou o adversário com a técnica de um Muhammad Ali. E o que dizer do gol olímpico de Petkovic contra o Atlético-MG? A bola não fez a trajetória habitual de despencar no meio ou no outro extremo da trave: ela caiu como um gancho de Sugar Ray Robinson no alto do mesmo canto!

Num campeonato marcado por atuações grosseiras tanto de árbitros como de equipes, esses momentos deveriam ser entesourados na memória afetiva. Não são apenas os desfalques que explicam o “tilt” do Palmeiras – que havia perdido quatro jogos em 28 e agora perdeu outros quatro em sete –, mas sobretudo a falta de jogadores que realmente fazem a diferença no momento em que ela deve ser feita. Os amantes (não possessivos) do futebol torcem agora para que o Flamengo, único a se destacar no returno, seja campeão, mas talvez seja tarde. Como no amor, se me permitem a comparação, no futebol nem sempre as coisas acontecem na melhor hora. Mesmo assim, é sempre bom que aconteçam.

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