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'Hoje é dia de ver o Gordo'

By Daniel Piza

Depois de anunciada a contratação de Ronaldo, no final do ano passado, estimei que se ele fizesse “uns 30 e poucos jogos e uns 20 e poucos gols” a temporada seria excelente. Afinal, desde 2005 ele não tinha uma temporada cheia, devido às lesões, e já há um bom tempo não é o atacante arisco, ágil e desconhecido que no Cruzeiro de 1993 fazia quase um gol por partida. Bem, estamos a cinco rodadas do final do “ano letivo” e, depois da dobradinha servida no domingo, ele está com 21 gols em 34 partidas. Mais importante que os 21 gols, claro, foram os momentos e as maneiras em que muitos deles foram feitos – e a conquista de dois títulos inéditos em apenas quatro meses.

Eu só não imaginava que Ronaldo não faria mais jogos por uma contusão na mão, em vez de joelhos e músculos. Mas eu imaginava que novamente calaria a boca dos que só sabem falar de seu peso e de escândalos pessoais e culpá-lo pelas derrotas da seleção em 1998 e 2006. Claro, estes assuntos vendem mais revistas, pelo menos o tipo de revista que vive de insuflar o falso moralismo da classe média brasileira. Tão grave quanto isso, porém, foi o que se ouviu insistentemente daqueles que Nelson Rodrigues chamava ironicamente de “entendidos”: a contratação de Ronaldo pelo Corinthians era apenas uma jogada de marketing, com chances escassas de dar certo dentro de campo, pois se trata de um “ex-jogador em atividade”… E sugeriram a ele que se aposentasse ou que fosse jogar na França ou até na Arábia, pois não aguentaria a cobrança da imensa e intensa torcida corinthiana.

Como disse Vampeta outro dia num programa de TV, depois de ouvir pela milésima vez a frase “se Ronaldo não estivesse tão gordo”, todo mundo diz isso e ninguém vê os outros jogadores fazendo mais do que ele em campo… Contra o Palmeiras, no forno de Presidente Prudente, Ronaldo chutou oito vezes a gol, fez um de pênalti e o outro num jogo de corpo diante do goleiro, deu “rolinho” em Diego Souza e voltou para distribuir jogo e abrir espaço. Ele faz parado o que os outros não fazem correndo, e nos momentos que escolhe para correr faz o que os outros não fazem parados… A maior contribuição de seu retorno foi mostrar que seu futebol sempre foi muito mais que velocidade e objetividade. Para quem não enxerga direito, seus arranques e gols ofuscavam seus amplos dotes técnicos.

Aos 33 anos, Ronaldo caminha para um fecho digníssimo de sua dramática mas vitoriosa carreira. Voltou e ganhou o Paulista, a Copa do Brasil e a adoração da torcida; ganhou, ainda, a admiração das outras torcidas, inclusive de muita gente que não queria saber de futebol. “Hoje é dia de ver o Gordo”, cansei de ouvir ao longo deste ano, e na semana passada na Bahia uma parte da multidão estava lá exclusivamente para vê-lo. E isso porque ele é celebridade? Não. Porque o torcedor, mesmo neófito, sabe que com ele em campo alguma coisa sempre pode acontecer – que mesmo nas partidas em que pouco aparece há sempre dois ou três lances de distinção. O tal carisma de Ronaldo vem, antes e depois de tudo, do que ele faz com a bola.

No próximo ano, terá um desafio enorme, o de comandar o Corinthians na Libertadores, principal título que falta ao centenário clube. Sinceramente, não ponho muita fé, pois a questão foi transformada em ponto de honra. Mas, mesmo que não conquiste nem esse nem outro título – e que não realize o sonho de voltar à seleção, afinal nada mais tem a provar –, basta que Ronaldo tenha mais uma boa temporada, com “uns 30 e poucos jogos e uns 20 e poucos gols”, que os deuses do ludopédio estarão felizes.

Post clonado sem qualquer autorização prévia  do excelente articulista do jornal O Estado de São Paulo, Daniel Piza.

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